segunda-feira , outubro 23 2017
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Contabilidade deve estar alinhada à governança corporativa para evitar práticas ilícitas

As grandes corporações brasileiras têm passado por momentos turbulentos nos últimos anos. Muitas delas são de  capital aberto e, além das tradicionais auditorias de balanço para validação dos seus números e resultados, possuem acompanhamento de agentes reguladores. A maioria possui também um conselho de administração que representa os interesses dos acionistas, e uma direção executiva para colocar em prática os objetivos determinados pelo conselho.

Em entrevista ao Portal Dedução, Rodrigo Moreno, diretor da prática de Investigações e Riscos Globais da FTI Consulting, empresa norte-americana especializada em compliance, explica que o crescimento dos negócios e a complexidade das atividades e dinâmica envolvidas torna necessário um acompanhamento muito próximo do conselho com as atividades dos executivos, sempre contando com o apoio da Contabilidade.

A falta de transparência das empresas vem sendo constantemente apontada como origem para o mau funcionamento do mercado. Qual sua opinião sobre este ponto de vista?
A maioria das empresas atua de forma transparente. As informações são divulgadas por meio dos relatórios financeiros, relatórios específicos de transparência e também por meio de fatos relevantes. O problema é que as atitudes indevidas não são e jamais serão divulgadas e, consequentemente, quando descobertas impactam o mercado de forma negativa. Evidentemente que muito pode ser feito para melhorar não só a forma de divulgar as informações, mas também o que se divulgar. No entanto, o principal aspecto a ser melhorado é a atitude correta dos altos executivos que devem optar por uma  atuação de forma ética. Moreno destaca também o que uma boa governança corporativa pode fazer pela empresa e como diminuir as práticas ilícitas.

A seu ver, qual a importância da governança corporativa?

A governança corporativa tem uma importância fundamental para contribuir com a transparência das organizações, e não só isso: ela também cria um ambiente de controles que pode gerar valor e melhorar o desempenho das organizações. Isso se deve ao fato da governança estar atrelada diretamente aos anseios das partes interessadas das organizações, em detrimento da vontade somente de um grupo, como o de executivos por exemplo.

No que consiste a governança corporativa?
A governança corporativa consiste em mecanismos eficientes para que os desejos de todas as partes interessadas estejam alinhados com o interesse e razão de ser da empresa. É um sistema que contempla todas as partes interessadas, envolvendo os sócios, conselhos, administradores, e também os órgãos fiscalizadores. A governança corporativa gera um ambiente de controle mais favorável para atuação de acordo com o anseio de cada parte, utilizando princípios que permeiam caminhos para monitoramento, controle e alcance de objetivos. A transparência está nesse meio e também é monitorada. Um bom ambiente de governança gera resultados e até tranquilidade às partes interessadas no curto e longo prazo.

A Contabilidade deve estar “alinhada” à governança corporativa, de que forma?
A Contabilidade deve sim estar alinhada à governança corporativa das organizações. As decisões das grandes empresas, principalmente na Contabilidade, podem afetar diretamente os resultados de uma organização e até mesmo colocá-los de acordo com os desejos de apenas alguma das partes interessadas. Dessa forma, uma empresa com governança corporativa aplicada de cima para baixo, e atuante, fará com os responsáveis pela Contabilidade atuem de forma correta e transparente. Como exemplos estariam a manutenção de descrições claras e corretas dos lançamentos contábeis, critérios de apurações de valores, atuação conforme os princípios contábeis e o compartilhamento de forma ampla dentro da organização, das decisões que podem impactar os resultados. A governança corporativa pode fazer com que a organização tenha mecanismos para que as coisas ocorram dessa forma, ou seja, pode desenhar um sistema com monitoramento independente, como uma auditoria interna que avalie essas informações e responda para um comitê ou conselho diretamente, assim como favorecer um ambiente que traga conforto para manifestações dos envolvidos, com garantias, quando necessário.

A governança corporativa e a Contabilidade podem diminuir ou até mesmo coibir práticas ilícitas?
Uma boa governança corporativa, em que haja apoio das principais lideranças de uma organização, sempre ligadas à Contabilidade, com certeza pode diminuir as práticas ilícitas. Agora coibir já se torna um pouco mais difícil. Pode ser que o estabelecimento de um ambiente bem monitorado coíba alguma determinada prática ilícita, mas não em 100% dos casos. Quando se tem conluio entre algumas partes é muito difícil um sistema coibir as práticas ilícitas. O mesmo se aplica, nesse caso em uma situação muito pior, quando os altos executivos, ou até mesmo os principais responsáveis por implantar o sistema de governança, agem de forma indevida. A própria governança pode ter um ambiente para diminuir esse risco, mas na prática se torna mais difícil. Não se pode querer o bem fazendo o mal de forma inescrupulosa e sem qualquer principio ético. Perceba que muitas organizações possuem governança corporativa e as partes interessadas, sejam elas os acionistas, empregados, terceiros, órgão reguladores etc, atuam dentro de princípios respeitados e se quer passam nas suas mentes que a empresa pode fazer parte de organizações criminosas. No entanto, quando menos se espera, surgem escândalos que tiram o chão de todos os envolvidos, que muitas vezes, devem se sentir traídos. Principalmente por estarem vendo aqueles que queriam a implantação de uma governança estarem agindo totalmente ao contrário e de forma criminosa.

O que é ao seu ver uma boa governança corporativa?
Uma boa governança se inicia lá no topo das organizações, com as principais cabeças nos principais níveis, como acionistas, conselhos e altos executivos. Se esses não estivem dispostos a implantar um sistema com princípios fortes, mecanismos eficientes e agirem dessa forma, não se pode falar em governança. Será tudo balela e o resultado será desastroso no longo prazo. Pode ser que durante algum tempo os resultados até sejam bons, mas será um alicerce em um chão de areia. Agora, se esses estiverem dispostos a buscar resultados honestamente e dentro de padrões éticos, sem visualizar somente interesse próprio, a disseminação da governança nas outras partes interessadas será notada, aplicada e gerará um ambiente totalmente favorável para evolução e crescimento da organização. Um aspecto importantíssimo a ser considerado é a criação de monitoramento independente, com força para atuação. Não adianta divulgar, ser transparente e não monitorar de forma eficiente.

Muitos empresários acham que investir em governança corporativa é desnecessário…

Todos gostam de investir e ver os resultados. Acontece que os resultados de investir em uma boa governança não será um valor maior no mesmo ano em seus resultados. A implantação de um sistema de governança eficiente mexe na cultura da organização, e isso leva tempo. A criação de controles, monitoramento e divulgação geram custos, mas não é como um produto ou serviço em que se investe e os resultados aparecem ou não de acordo com planos traçados. O que os empresários têm que ter em mente é que os resultados são de certa forma ocultos e ao longo prazo terão uma capacidade e solidez que os que não investiram não poderão gozar da mesma forma.

Na prática, este tipo de investimento pode aumentar lucros, já que a empresa que investe em governança corporativa pode chegar aos clientes com confiança, ética e credibilidade?

Acredito que sim. Uma empresa que busca atender a todas as partes interessadas de forma justa, transparente e eficiente, e demonstra ao longo do tempo que não foge de suas responsabilidades não afastará seus clientes e ainda conquistará novos. Por mais que se inventem caminhos alternativos, que apareçam novos concorrentes, muitas vezes até transparentes e com boa governança, os clientes sempre vão ter na mente aquelas empresas que sabem que podem confiar, e os resultados da governança aparecem nesse momento. Essas empresas naturalmente vão agregando junto ao seu nome uma ideia de ética na atuação, que acaba gerando credibilidade nos produtos ou serviços. Isso pode resultar até mesmo em preços diferenciados e, consequentemente, em melhores resultados para as organizações que estão dispostas a pagar esse preço.

Entrevista: Danielle Ruas

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